sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Pivôs sofrem

Yao e Shaq tomando cuidado para não pisar na Aguilera


Pivô é uma posiçãozinha muito da ingrata. Se você é bom, não faz mais do que a obrigação, afinal tem todo esse peso e altura. Se você é ruim, então é uma vergonha porque não sabe usar o tamanho. Todo pivô alguma vez na vida ouviu alguém dizer "Ah, se eu tivesse seu tamanho não ia errar isso aí." Menos para o Rasheed Wallace, porque o primeiro cara que dissesse isso para ele iria jogar basquete de cadeira de rodas.

Já faz muito tempo que a NBA sofre com uma terrível falta de pivôs. A grande maioria são apenas caras grandes e largos com pouco impacto nas partidas. O técnico do Nets, Lawrence Frank, volta e meia elogia o Jason Collins, cuja única função é ser grande e dar uma atrapalhada no garrafão defensivo. Quando o Collins recebe elogios, dá pra saber que a coisa tá feia. Ainda no Nets, o roliço do Jamaal Magloire está sentado no banco de reservas. Na temporada 02-03, Magloire foi para o All-Star Game na época em que o Hornets estava no Leste e o Shaq no Oeste. Nada poderia gritar mais em nossas orelhas "a NBA não tem pivôs!" do que o Magloire num All-Star Game. Dá pra imaginar? Foi um tapa na cara de todo mundo e as vozes ao redor do globo se levantaram: "Jamaal Magloire? Ah, se eu tivesse o tamanho dele também estaria lá." É, nesse caso, é bem provável mesmo.

Foi nessa era "Magloire All-Star" que o Yao Ming chegou à NBA. Os duelos Shaq vs Yao traziam uma rivalidade meio esquecida nos garrafões da Liga. É claro que o Yao ainda não tinha condições de enfrentar o Shaq a princípio, mas com Shaq dizendo que iria ensinar um pouco de "Shaq Fu" para o Yao e com todo mundo querendo ver o chinês tomando um vareio, o duelo era imperdível. Yao Ming sempre se superava nessas partidas e os duelos eram, em geral, em alto-nível - muito embora quem decidisse aqueles jogos fossem, sempre, Kobe Bryant e Steve Francis.

Quanto mais experiência o Yao ganhava, melhores os encontros com o Shaq ficavam. Já faz um tempo que o chinês sai invariavelmente vencedor desses confrontos. Na última vez, foram 34 pontos de Yao contra 15 pontos de Shaq. E o grande Diesel, apelando como criança de pré-escola, disse que o Yao só era alto, nada mais. Ah, se o Yao fosse o Rasheed...

Mas esquecendo um pouco a rivalidade e as desavenças, Yao e Shaq (que se enfrentam hoje às 23h na ESPN) têm algo em comum que vem se tornando rotina para eles: problemas com a arbitragem.

Há uns dois anos atrás, o gênio entediado David Stern, um cara que não sabe nem amarrar os cadarços mas tá sempre preocupado em enfiar o nariz em alguma coisa (tipo aquele tal de Bush), ficou preocupado com as pontuações baixas da NBA e teve uma conversinha com os árbitros. Tocar o jogador com posse de bola atrás da linha de 3 pontos virou falta imediata, surgiu a política de tolerância zero (espirrou, falta técnica!) que expulsou o Sheed de uns 3 jogos seguidos (mas que não durou muito) e contato no garrafão começou a ser tratado de uma forma diferente. As pontuações da NBA subiram mesmo, graças a uma tonelada de lances livres cobrados por jogo. Idéia horrível, mas temos que ficar felizes do Stern não ter feito as bolas de 3 valerem 4 pontos ou coisas assim.

Sei que tem gente louca pra dizer que o Shaq tá velho e acabado, e é claro que ele está velho mesmo. Outros estão logo usando a teoria de que os Monstars roubaram seu talento. Mas, para mim, grande parte da culpa de seu declínio é justamente a arbitragem. O Shaq sempre foi absurdamente físico, nunca poupou cotoveladas e engolia seus defensores com um pouquinho de azeite e sal. Só que, de uns tempos pra cá, todas as velhas (velhas não, clássicas, olha o respeito) táticas do Shaq são recompensadas com uma falta de ataque. Ao mesmo tempo em que, sei lá porque, ele começou a ir cada vez menos para a linha de lances livres. Para os conspiradores, algo a pensar: alguma coisa na conversa do Stern com os árbitros transformou a carreira do Diesel.

No auge de sua frustração, puto da vida por ficar pendurado com faltas todos os jogos e recebendo cada vez menos apitos ao seu favor, disse: "Só porque sou grande, quando me batem não marcam falta nenhuma achando que posso aguentar. E quando toco em alguém, só porque a diferença de peso é grande, marcam falta na hora. Oras, se eu piso no seu pé, vai doer em você! E se você pisa no meu pé, vai doer em mim! O tamanho não importa."

Um pisão do Shaq me deixaria incapacitado por toda a vida, mas isso não vem ao caso. As reclamações antes não eram nem necessárias, agora são uma constante. Do mesmo modo, Yao Ming vem tendo problemas com a arbitragem. Quando chegou à NBA, Yao seguia à risca aquelas normas de conduta esquisitas da China: não expressava suas emoções em público, não xingava, não reclamava, tentava não brilhar mais do que os companheiros de equipe, não enterrava por ser falta de respeito, e o pior: comia carne de cachorro. Com o tempo, foi comendo mais hambúrgueres, ouvindo mais rap, usando cartão de crédito, vendo a Britney fazer papel de ridículo e aparecer sem calcinha e começou a pegar o jeito do mundo ocidental. Agora mostra suas emoções em quadra, dá socos no ar o tempo todo (tipo o Pelé e o Raí), briga com os companheiros, enterra e até fala palavrão. Não acredita? Dá uma olhada aqui no "fuck" do moço.

Além disso, agora o chinês reclama da arbitragem - e cada vez mais. Anda tendo os mesmos problemas de seu rival Shaq. Por causa de seu tamanho, recebe contato e nenhuma falta é marcada. Basta assoprarem o Ginobili e o Wade para seus corpos franzinos de moça delicada desabarem no chão com uma falta marcada. Shaq e Yao são baleados pelos amigos do Ron Artest à queima-roupa e nada acontece. "Tá sangrando? Ah, pegou de raspão. Continua aí."

Contra o Mavs, Yao Ming reclamou tanto das pancadas que começou a perder a cabeça. Tomou uma falta anti-desportiva grotesca do Devin Harris e até levantou pra ir pra cima do nanico. O Yao indo pra cima de alguém? Sinal do Apocalipse!

Claramente perturbado, errou o primeiro lance livre da falta antes de voltar a se acalmar com algum tipo bizarro de respiração chinesa. Em entrevista recente, Yao disse que voltará a se concentrar no jogo e deixar a reclamação com a arbitragem para alguém que não perca tanto a cabeça quanto ele. O Rasheed, aliás, deveria fazer o mesmo, de preferência contratar um gorila treinado que reclame por ele.

No duelo de hoje entre Shaq e Yao, o fator decisivo pode muito bem ser a arbitragem. Quantas vezes cada um irá para a linha de lances livres? Poderá o Shaq ajustar seu jogo, evitando os contatos que - agora - o colocam em foul trouble? É sempre triste como a arbitragem, às vezes mais, às vezes menos, é capaz de decidir a carreira e o futuro de um jogador.

Enquanto eu escrevia isso, Manu Ginobili tacou meu monitor no chão. Não tive nem tempo de me mexer mas o juiz marcou uma falta minha nele. Agora uma técnica. Duas. Estou expulso.

4 comentários:

Renan disse...

Até acho que o Shaq vem sendo prejudicado pela arbitragem, porém seu declínio se deve em grande parte mesmo a sua idade, o cara não é mais o mesmo, porém, se tratando do Shaq é sempre preciso tomar cuidado com previsões.

Parabens pelo trabalho o Blog está muito bacana!

Felipe disse...

É, Danilo... Pior é ouvir, de MIM, quese tivesse o SEU tamanho eu enterrava! hahahahha!

Mas realmente a coisa está ficando bem chata na NBA. As faltas estão atrapalhando não só os dois, mas também o Amare e o Howard... O Amare sempre tá pendurado também, tristeza.

E é lógco que você fez falta no Ginóbili, e foi expulso com toda razão!

V. Giannini disse...

Hahaha. O último parágrafo foi ótimo.

Talvez seja o jogo mais interessante da ESPN nessa temporada, por enquanto.

T-Mac, Wade, Yao, Shaq. Atrativos não faltam. E espero que a juizada não encha o saco e deixem os dois grandalhões em quadra, sem pendurá-los com faltas.

Particularmente, estarei torcendo pelo Rockets. Porém, no duelo individual entre Yao x Shaq, torço pelo Shaq, apesar de também gostar do Yao. É que tem tanta gente dizendo que o Shaq já está acabado...

Pior que já estou até prevendo o que vai acontecer se o Shaq levar vantagem hoje...

"Bah. Em cima do Yao Ming qualquer um joga bem. Esse chinês é enganador, só tem tamanho. Quero ver fazer isso no D12".

Tá bom, então...

Danilo disse...

Ih, mas contra o D12 iam falar que ele só enterra e não faz mais nada, contra o Amaré iam dizer que ele só joga assim por causa do Nash, contra o Homem-Aranha iam dizer que ele não tem coragem de mostrar o rosto... vida de pivô é foda.