terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vultos da NBA - Ed Palubinskas

Ed Palubinskas joga amistoso no Brasil


No dia 2 de setembro de 1972, nas Olimpíadas de Munique, o Brasil sofria sua segunda derrota no torneio de basquete masculino. A vitória deixaria o país empatado com Cuba em segundo lugar um dia antes do confronto direto entre as duas seleções para uma vaga na semi-final. A derrota, porém, tirou o Brasil da competição.

O cestinha daquele jogo foi um garoto de 21 anos chamado Ed Palubinskas. O "Mr.Basketball" australiano fechava sua primeira Olimpíada com média de 21 pontos por jogo, o segundo maior pontuador da competição. Cestinha ou segundo cestinha de todos os jogos que disputou, Palubinskas ainda não estava no seu auge olímpico.

Em Montréal 76, depois de quatro temporadas pela LSU no basquete universitário americano, marcou 48 pontos na partida entre Austrália e México. Nunca antes e nem depois um jogador marcou tantos pontos em um jogo de basquete nas Olimpíadas. Saiu de Montréal com um modesto oitavo lugar mas o posto de maior cestinha de uma edição de jogos olímpicos com 219 pontos, 31 por partida. O recorde só foi quebrado pelo Oscar nas Olimpíadas de Barcelona.

Nascido em Canberra, capital da Austrália, Palubinskas era uma criança que se divertia jogando o bom e velho futebol. Quando tinha 15 anos sua escola contratou um novo professor de Educação Física que era jogador de basquete e Ed conheceu o novo esporte. "Ele era um grande técnico, homem e professor. Mas não aprendi tudo o que sei com ele". Bastou aprender o amor pelo jogo para que a vida de Palubinskas ganhasse um novo rumo. Já no colegial evoluiu atleticamente e passou a disputar torneios. Seu jogo, porém, ainda não era muito polido.

"Eu era rápido, ágil, pulava, enterrava. Era um bom jogador. Mas odiava passar a bola, mais do que o seu Oscar Schimdt. Acho que a única vez que passei alguma coisa foi quando passei uma pedra do rim para fora de mim. É isso, tenho uma assistência."

Aos 20 anos Ed ganhou o prêmio australiano de "Mr.Basketball", depois foi para suas primeiras Olimpíadas e de lá para os EUA. Na terra do basquete ele começou a se destacar não mais por seu atleticismo, mas pelo seu arremesso. Liderou o país em aproveitamento de lance livre, com 92%, e tem ainda o recorde de mais lances livres acertados em sequência num mesmo jogo, 14. Sua dedicação tática, seu arremesso e finalmente a força de vontade para passar a bola um pouquinho mais o fizeram ser um All-American, seleção dos melhores jogadores universitários da temporada.

Depois de quatro anos de sucesso acabou sendo draftado para a NBA mas sem muita chance de ir para a liga. Ele era bom, mas nem tanto. Foi uma escolha de 3º round do Atlanta Hawks no draft de 75, época em que os drafts eram quase infinitos. Acabou por jogar profissionalmente apenas na Austrália e na França, abdicando das ligas menores dos EUA. Palubinskas, em alguns e-mails cheios de GIFs animados com smiles enterrando bolas de basquete, chama sua carreira de "Disneylândia", por ter se divertido mais jogando basquete e sendo pago pra isso do que em qualquer outro momento da sua vida. O gosto pelo basquete o fez se arriscar no mundo dos técnicos quando ele ainda era novo. No fim dos anos 70 até se arriscou num bizarro projeto de criar uma academia americana de basquete no Bahrein.

A carreira, o gosto pelo basquete, as duas Olimpíadas, a carreira universitária e os quase 5 anos de carreira profissional foram, no entanto, apenas um prelúdio do grande momento da sua vida.

Numa noite congelante de 1981 em Utah, Palubinskas voltava de um treino noturno dirigindo seu carro sobre o gelo que cobria a estrada. Em uma curva que leva a uma ponte, o carro começou a perder o controle. No segundo em que teve que decidir o que fazer, Palubinskas escolheu colidir o carro com a parede da ponte ao invés do frio congelante da água sob ela. Imobilizado dentro do carro que ameaçava pegar fogo, Ed saiu apenas com a ajuda de um homem que morava próximo ao local do acidente. Ao sair arrastado, quase foi atropelado, junto com os destroços de seu carro e o bom samaritano que o ajudou, por um caminhão que escorregara na mesma parte congelada da pista: "nós dois tivemos muita sorte".

Durante os 14 dias em que permaneceu no hospital, Palubinskas estava arrasado. Havia quebrado 3 costelas e não tinha o movimento do lado direito do seu corpo, o lado do arremesso. Em todo momento repetia que sua carreira tinha acabado. Ao voltar para casa, já mais calmo e depois com ininterruptas sessões de fisioterapia, os movimentos da mão voltaram e como passatempo Ed dirigia sua cadeira de rodas até o quintal de casa para brincar de arremesso.

Ao arremessar, fazer bandejas em velocidade e perceber a ótima porcentagem de aproveitamento que mantinha, surgiu a inspiração. "Percebi o quanto de movimento é desperdiçado no ato do arremesso. Só na cadeira de rodas fui perceber como concentramos nossa força em áreas inúteis para o arremesso". Foi quando iniciou uma infinita, repetitiva e conscientemente interminável busca pela perfeição. Mórmon, acredita que Deus, um ser perfeito, fez o homem à sua imagem e semelhança e que se ele não é perfeito nos seus arremessos é culpa dele mesmo e isso deve ser treinado.

Depois de dois anos de carreira interrompida, Palubinskas voltou a jogar. Mas não mais apenas vencer jogos era o seu objetivo, buscava mais ainda a perfeição pessoal e essa perfeição no formato dos chutes. Decidiu estudar cientificamente a mecânica do arremesso e se transformar, mesmo que em apenas uma área de um esporte, na perfeição divina.

Ed Palubinskas diz ter errado apenas três lances livres em 18 anos de competições profissionais. Repete exaustivamente a cada mensagem que acertou 1572 dos 1575 lances livres que tentou em competições oficiais como profissional. Segundo Palubinskas, resultado de pura equação científica: "Ângulo de saída do arremesso é igual ao ângulo de entrada, é assim que eu trabalho". Perguntei mais detalhes dos métodos científicos e ele disse que é uma simples questão de triângulos, "Bola sobre a cabeça, munheca e os dois cotovelos formando um triângulo equilátero. Cabeça e os pés na base formando um triângulo isósceles e o dedão, indicador e dedinho na bola formam outro triângulo perfeito. Ah, veja o resto no meu site".

Foi natural que ao envelhecer Ed Palubinskas desistisse de jogar profissionalmente para se dedicar apenas à obsessão da perfeição. Tirou 360 mil dólares da poupança pessoal, empréstimos e amigos para montar o Smartball System, um conjunto de bola, DVD educacional e livro que ensina todas as técnicas de arremesso desenvolvidas por Palubinskas desde que fazia bandejas em cadeiras de roda no quintal de casa. Atualmente Ed conversa com a Adidas e a Nike para que seu produto, comercializado apenas via internet, vire comum em quadras de rua ao redor do mundo.

"Minha missão na vida é mudar os conceitos errados e as mecânicas ruins de arremesso em todo o mundo. Com esse sistema e treinando técnicos eu posso melhorar o aproveitamento de um país inteiro em 10% em apenas um ano. Podemos mudar o mundo um país de cada vez."

Durante as entrevistas, Ed Palubinskas demonstrou grande vontade de vir ao Brasil, até apresentou um projeto que custaria 100 mil dólares e que segundo ele revolucionaria os arremessos por aqui. Acha que o país gosta de basquete, gosta de arremessar, mas já não produz arremessadores como antigamente. "O Leandrinho tem um aproveitamento fenomenal, é um dos grandes arremessadores da NBA, mas claramente nunca foi treinado por ninguém".

O sistema nunca foi adotado por uma federação nacional como era o seu desejo. Nos EUA ele treina muitos técnicos de equipes pequenas, escolas e universidades para que estes ensinem seus alunos, mas não foi em quantidade suficiente para dizer que ele está perto de mudar a cultura do arremesso no país da infiltração. Por enquanto seus trabalhos são mais específicos, em 2005 treinou os arremessos da seleção australiana de basquete feminina que veio a vencer o mundial feminino aqui no Brasil em 2006.

Hoje, Ed Palubinskas divide seu tempo entre procurar alguém para bancar o seu projeto do Smartsystem de arremesso e o treino com seu cliente, o ala do Magic Brandon Bass. Não é à toa que em seus 4 anos de Mavs ele evoluiu de 40% de aproveitamento nos arremessos para 49% e de 60% para 86% nos lances livres. Agora, com Bass jogando na Flórida, existe até a conversa para a contratação de Palubinskas para treinar o time inteiro. E isso porque o Magic já é o time que mais acerta bolas de 3 em toda a liga. Se der certo, Palubinskas estaria bem próximo de conseguir seu segundo anel de campeão. Sim, o segundo.

No ano 2000 o Lakers foi campeão da NBA depois de vencer o Pacers de Reggie Miller na final. Não foi fácil. O time era bom e experiente mas a verdade é que o trio de ferro era Shaq, Kobe e Glen Rice, com o último muito aquém da sua melhor forma e Kobe ainda muito jovem e muito fominha. Muita daquela equipe era o Shaq que levava nas costas e o fazia com 55% de aproveitamento no lance livre. "Meu lance livre é o jeito de Deus dizer que ninguém é perfeito", dizia o pivô naquele tempo.

Preocupado com a dificuldade em repetir o feito com essa forma e provavelmente sem saber o peso das palavras "Deus" e "perfeição" para seu novo contratado, o Lakers chamou Ed Palubinskas para ser o técnico particular de Shaquille O'Neal. Era o encontro de dois mundos opostos. Palubinskas diz que diariamente treina lances livres e que acerta, sem exceção, 99% das suas tentativas. Shaquille O'Neal, pouco tempo antes, tinha falhado em duas temporadas consecutivas em alcançar o 50%.

O ambiente era de pressão, Palubinskas foi proibido no contrato de conversar com qualquer um da imprensa. "Eu era o ingrediente secreto da Coca-Cola naquela época, ninguém podia saber de mim". Claro que a notícia do treinador particular chegou aos ouvidos de todos, mas Palubinskas não falou com ninguém. Shaq, em compensação, não parava de ser questionado sobre a qualidade de seus lances livres. "A mídia e a imprensa eram seus piores inimigos, o pressionavam demais sobre a história do lance livre. Mas ele até que levou numa boa. Era um bom aluno mas sem nenhum desejo de chegar à perfeição".

O resultado de toda pressão deu resultado nos playoffs. Naquele ano Shaquille O'Neal teve a melhor marca da sua carreira em temporadas regulares, 62% de aproveitamento. Nos playoffs subiu para 64% e o Lakers foi devastador, 15 vitórias, 1 derrota e o bi-campeonato. Palubinskas levou o seu anel de campeão mas não teve o contrato renovado.

No ano seguinte Shaq voltou para os 49% de aproveitamento e depois despencou para patéticos 46%. Para Palubinskas, o contrato não foi renovado e ninguém foi atrás dele porque a NBA é um ambiente terrivelmente competitivo e de egos inflados. "São muitos egos, muito medo de perder o emprego, de alguém saber mais do que você. E não tem espaço para a busca pela perfeição com egos tão grandes, não deu certo".

Em entrevista realizada em 2006 para o site HoopsHype, Palubinskas parecia um pouco mais ressentido sobre sua relação com o Shaq, dizendo que nunca havia recebido nem um "obrigado" do Big Fella. Na mesma entrevista ele listou Steve Nash, Dirk Nowitzki e Peja Stojakovic como seus arremessadores favoritos da atualidade e Ben Wallace e Bo Outlaw como os piores, mas disse que os dois tem salvação com o treinamento correto.

Mesmo compreendendo a natureza da liga, Ed não deixou de acompanhá-la. Se diz um torcedor do Lakers não só pelo anel que tem pelo time, mas pela admiração por Kobe, com quem trabalhou também em 2001. "Kobe é o melhor jogador da atualidade e tão bom quanto Jordan. LeBron James não sabe arremessar, se ele aprender eu posso mudar de idéia. Se eu estivesse em Cleveland com ele, Shaq e Varejão aprendendo a arremessar, eles seriam campeões."

Mesmo com essa história rica, conheci o Ed Palubinskas da maneira mais estranha. Um dia, vendo um vídeo sobre um garoto prodígio de 8 anos que jogava muito basquete, achei hilário que ele fosse treinado por um cara da Associação Nacional de Arremessadores de Basquete. Intrigado e ainda rindo da associação mais esquisita que já vi na vida, busquei o site deles e descobri Palubinskas como o seu presidente e fundador.

A associação tem 2 anos de idade e sede na cidade de Baton Rouge, Louisiana. Tem cerca de 20 técnicos treinados e cadastrados que viajam os EUA treinando técnicos, equipes e jogadores em especial. Foi através da associação que eles chegaram a um acordo de treinamento intensivo de uma semana com o Glen Davis nessa offseason.

Caso Palubinskas não consiga um trabalho fixo dentro da NBA nessa temporada (além do Magic, existem negociações com Suns, Nuggets, Kings, Knicks, Warriors e Grizzlies), ele irá se dedicar a seu treino pessoal, já que no ano que vem ele pretende quebrar um recorde do Guiness Book que um dia já foi seu: o maior número de lances livres convertidos no período de uma hora.

Atualmente o recorde é de 1643, mas ele pretende, no ano de 2010, acertar 2010 arremessos em 60 minutos. A busca pela perfeição divina é cheia de toques de grandeza humanos, Palubinskas planeja realizar o feito em frente à Muralha da China. Para muitos, eu inclusive, é impossível imaginar tal quantidade de arremessos feitos em uma hora, mas confiança não é problema.

"Nenhum jogador pode me vencer e nem nunca poderá. Eu sou o mestre e o aprendiz não pode vencer o mestre facilmente. Existem muitos doutores em arremesso por aí, eu sou um cirurgião".

10 comentários:

Anônimo disse...

Gostei desse cara!! Meu ponto forte é o arremesso, o meu único problema é que eu sou novo (15 anos) e me falta força pra tentar arremessos mais ousados. Mas vou treinando ae e até desafio o Varejão num concurso de jumpshot uhauhahua se der mole eu ganho lol

Victor Ramos

Rodrigo Lakers disse...

Então esse é o famoso personal FT shooter do Shaq em 2001! Eu lembro dos caras da ESPN comentando na época. Concordo com o que ele disse, em especial quando ele falou do Leandrinho. Aquela mecanica de arremesso dele é muito errada!
Parabéns pela entrevista, ficou ótima.

Fernando Araujo disse...

muito legal a maneira q ele tem pra estudar o arremesso. acho q seria legal pra muitos jogadores da liga. mas no brasil seria extremamente necessario. por falar em arremessos de 3. adam morrison 4 de 4, e de 4 só o o jim morrison q eu sabia.

Daniel Lakers disse...

Po esse jogo do 4/4 do Morrison , o Lakers todo jogo bem cara...ta certo q e so pre-temporada...mas esse time ta mi dexandu ancioso e confiante ...

Go Lakers!!!

Abraços!

White_Crow disse...

Carai.... grande historia!
Não fazia nem ideia q existisse uma associacao dessas

Anônimo disse...

Esta matéria me fez lembrar do manual show do esporte. Todo mundo me gozava por causa dele, mas eu fui o primeiro do time e do clube a aprender a fazer bandeja de mão esquerda. Porém, acho que o método de arremesso que se ensinava era diferente do descrito no texto acima.

Marcus disse...

Que bela historia de dedicação pelo esporte. A CBB deveria contratar este cara para treinar nossas categorias de base.
Do mais, parabéns pela matéria.

Gabriel disse...

Oi. Teria como botar o link sobre a Transmissão de jogos da NBA pelo Terra, por favor? Não acho ele em lugar nenhum. Abs!

Fernando Araujo disse...

QUe q vc faria se vc fosse titular e os outros titulares do seu times fizessem 8,5,0 e 0 pontos????? bom o wade fez 35 sozinho e ganhou o jogo...

Denis disse...

A notícia sobre o terra transmitir NBA está aqui: http://esporteemidia.com/?p=4957&cpage=1

O canal Space também vai passar jogos e a programação deles é essa aqui: http://esporteemidia.com/?p=4947&cpage=1